domingo, 9 de março de 2014

A crise dos 25

Achei: 
Conversando com um amigo, ele expressou sua insatisfação com um ou outro ponto em sua vida, e completou “Minha nossa... vamos fazer 25 anos.”

Aquele ponto em que, não sei se todos, mas, pensamos não ter feito ou conquistado "nada". De estar solteiro, sem ter concluído etapas e se sentir um pouco "atrasado". Eu inventei e disse "É a crise dos 25".
É que na vida, nada tem um tempo certo.
Ora, você não deixa de fazer certa coisa aos 20 anos e, se não fizer exatamente com esta idade, estará perdido! Já foi! Bye, bye! Acabou qualquer chance de realizar. Não, já vi "vovó" de 100 anos pulando de paraquedas.
O fato é que nosso corpo e mente pedem que certas coisas aconteçam quando eles estão preparados para tal. É mais confortável e sobra certo tempo para fazer ajustes se algo der errado.
Hoje, exatamente hoje, com 25 anos, ainda não realizei todos os planos, metas e sonhos que tenho para minha vida. Sinto, às vezes, que poderia -se o esforço fora maior, ter conseguido tais desejos. Mas, pensando agora, eu era tão nova e exigia mais do que era necessário. Culpei-me mais do que merecia. Sou do tipo de pessoa que acredita que, quando damos o que é necessário àquilo que queremos, ele vem no momento certo. 
Ainda que a genética tenha sido gentil e guarde minhas feições de 20, muita coisa aconteceu e muita coisa mudou. Mudei, e, com um quatro de século de vida, tenho expectativas de que os outros anos serão generosos e que, com o esforço e fé necessários, tudo será possível.
Tudo ficará bem.

terça-feira, 4 de março de 2014

Interrupção

Achei: 

Saiu do consultório atordoada. Que notícia mais inesperada, pensou ela.

Doença de Jacob, definitivamente não era algo que, um dia, pensara ter. Ninguém pensa nisso.

O médico dissera, com termos mais elaborados, que seu cérebro estava se transformando num queijo suíço. E era uma doença inevitavelmente mortal. Só existiam paliativos. Não teria muito tempo dali em diante. Logo começariam os espasmos musculares, as intermináveis enxaquecas e a demência.

No caminho para sua casa, não aguentou o peso. Parou sob a sombra de uma árvore e chorou. Ia morrer logo! Deixaria mãe, pai e seu irmão. Seus amigos. Seu noivo... seu grande amor. O casamento estava marcado para dali a dois meses e meio. Ela olhou para o anel em seu dedo. O brilho do pequeno diamante a fez lembrar dos olhos de seu noivo. Uma dor cada vez mais insuportável crescia nela.

O que faria, então?

Chegou em casa, olhando para os móveis, para as fotos sobre a estante. Quantas histórias ali.

Iria daquele mundo, mas não queria conviver com olhares piedosos, com despedidas sofridas nem que Daniel se casasse com ela como último gesto de compaixão. Se despediria de todos, mas o faria sem que soubesse que era uma despedida.

Sentou no chão de seu quarto, e Cotton, sua pequena companheira de quatro patas subiu em seu colo. Acariciou por alguns minutos seu pelo fofo e pensou que teria que se despedir dela também.

Pegou algumas caixas, com lembranças importantes...

Para lidar com a família, diria que se mudaria para outro país, fazer o mestrado e trabalhar com sua arte. Uma ideia antiga, que seus pais já ouviram e que, agora que rompera do Daniel, teria como realizar. Depois de muito tempo, com bastante sorte, encontrariam uma carta que lhes explicariam o que realmente aconteceu. O quanto ela os amava e como ela não queria ir embora deste mundo deixando como última imagem sua uma filha 15 quilos mais magra, com propensão a convulsões e demente, incapaz de reconhecê-los.

Com os amigos seria menos complicado. A maioria a esqueceria com o tempo, e cada um teria tantos outros amigos para compensar. Sua melhor amiga receberia uma carta também, destacando as boas lembranças e devolvendo todos os presentes que recebera e guardara com carinho.

A parte mais difícil e complicada envolveria o homem que Anneth escolhera como companheiro, amigo e amante para toda a vida.

Se eles casassem, não teriam tempo nem para uma semana de lua de mel. Sem falar que dali a duas semanas, sendo otimista, a doença já mostraria suas consequências e todos saberiam que ela estava doente.

A solução mais eficaz seria terminar com ele. Magoá-lo com uma falsa traição e o fazer odiá-la. Seria menos doloroso para ele ser o noivo traído, do que um esposo viúvo.

Viúvo de um amor jovem. Viúvo dos planos que jamais se realizariam.

Daniel não receberia uma carta. Não seria informado sobre o que realmente acontecera. Se soubesse, seria tomado pela culpa por tê-la ofendido com os piores nomes da terra. Não. Ele seguiria com sua vida. Levaria alguns meses para superar a “traição”. Algum tempo para deixar de amá-la. Até conhecer outra mulher, se apaixonar, fazer novos planos. Casaria e, num dia especialmente feliz com sua nova esposa, que sorte a dele! Estava mais feliz e que aquela mulher que um dia fez parte de seus planos, e que lhe magoou, fez muito bem em ir embora de sua vida. Que estava muito melhor agora.

Anneth terminou de pensar em tudo isso com uma forte dor no peito. Sua cabeça doía e sentiu-se muito fraca. Separou algumas coisas e começo a escrever as cartas.

Não lembra que horas foi dormir. Nem lembra de ter acordado.

17 horas depois de Anneth não atender a nenhuma das ligações que fizera, Daniel resolveu procurar seus pais e para sua infeliz surpresa, ela também não informou a eles seu paradeiro. Foram direto para o apartamento dela.

Bateram na porta e ouviram os latidos abafados de Cotton. Chamaram por ela algumas vezes antes de Daniel arrombar com um único chute a porta da entrada.

Olharam por todos os cômodos antes de correrem para seu quarto.

Os três se olharam apreensivos e carregavam no olhar a tristeza do que acreditavam que encontrariam atrás daquela porta.

Foi Daniel que abriu a porta e nem percebeu que seus sogros começavam a chorar com desespero. A sensação foi de que seu coração parara. Por uma eternidade...

Anneth estava no chão, deitada, meio encolhida como se estivesse com frio. E deitada perto de seu rosto, Cotton olhava triste para sua dona, talvez guardando seu cheiro na memória.

Ao redor dela, fotos dela com a família, com os amigos, com ele. Caixas com muitos papéis e envelopes. Eram cartas de amigos e algumas dele, que ela guardava. Viu uma rosa seca, que ele lhe dera quando a pedira em casamento, papel e caneta. Aproximou-se dela. Seus olhos estavam fechados, e sua pele estava fria e pálida quando a tocara. Não carregava expressão de sofrimento e percebeu que a aliança de noivado não estava em seu dedo, e sim na palma de sua mão.

Reconheceu sua letra numa folha branca e leu as oito primeiras e únicas linhas do que ela começara a escrever e não conseguira terminar.



“Mãe e pai


Não sei bem como dizer em uma só carta o que me aconteceu, o porquê tive de ir embora e o quanto amo vocês. Estou doente. Muito doente. E me vi obrigada a me separar de vocês porque, ainda mais doloroso do que me separar, seria ir e deixar a imagem que nunca quis que vocês vissem em mim. Guardem em seus corações meus sorrisos, meus abraços e nossos momentos mais felizes. Fui assim e guardem isso.

Peço que entendam a dor do Daniel, e nunca, por favor, nunca contem a ele o que me aconteceu... Ele fez meus dias mais felizes, e eu o amo tanto mãe e pai... amo tanto... ”

Anneth partiu muito antes do tempo que ela própria havia se dado. Não foi a doença que a levou. Seu coração foi ficando fraco, amedrontado e já carregava nele a dor da saudade de cada um que ela tanto amava e que teria que se despedir. Ele parou e levou consigo seu tempo e suas chances de dizer adeus.