quarta-feira, 24 de abril de 2013

Uma nunca Sra. Rodrigues

Achei: 

(Agosto)
Passei a semana pensando no fora que dera: seguir ele até o estacionamento?! É claro que ele ia me ver!
Voltei para meu posto e, fingindo trabalhar, fiquei relembrando o momento em que ele entrou por aquela porta, com ar cansado, barba por fazer, usando uma estranha combinação de roupas... absolutamente lindo.
Tentei compreender aquela nova coisa que estava sentindo, se formando e crescendo dentro de mim. Quase espontaneamente. Acredito que naquele momento eu passei a acreditar que o ''amor à primeira vista'' existia. Que não era invenção de filmes hollywoodianos. E aceitei que, naquele momento, eu havia me apaixonado. Que coisa mais boba e destrutiva!

(Dezembro daquele mesmo ano)
Passei meses tentando decifrar seu sumiço. Passei esses mesmos meses formulando uma maneira de lhe contar o que sentia. Não cheguei a um plano. Não cheguei nem perto... Mas eu pensava nele. Todos os dias pensava nele. E no momento no qual entraria novamente por aquela porta e eu largaria tudo o que estivesse fazendo, me jogaria em seus braços e lhe beijaria lentamente enquanto acariciava seus cabelos. Era um plano que também jamais poria em prática, mas não custava nada pensar...

(Dia 22 daquele mesmo mês)  
Quase meia-noite, em pé, controlando a entrada dos passageiros e vistoriando bagagens, eu trabalhava absorta nos rolos da esteira, levantei os olhos e "tum, tum...tum, tum..."
Senti o rosto enrubescer loucamente. Era ele...
Nós, por cinco lentos segundos, nos olhamos. Eu senti a reciprocidade, a intensidade daquele olhar. Ele estava tão cansado e tão mais barbudo desde a última vez que o vira. 
E eu, ainda tão apaixonada quanto antes.

(Dia seguinte ao dia 22 daquele mesmo mês)
Subitamente tomada por uma violenta coragem eu decidi "Vou falar com ele!"
Era contar com a sorte de nossos caminhos se cruzarem, e a sorte das minhas pernas não me traírem e me levarem para direção oposta a dele.
O destino queria mesmo testar minha ousadia e naquele mesmo dia o colocou no mesmo metro quadrado que eu. Agora com rosto liso e aparência mais saudável ele se dirigiu para sua sala, depois de me dar "Bom dia". Naquele momento eu ouvia duas coisas: meu coração querendo sair pelos ouvidos e o pensamento acelerado que me dava ordens opostas "Vai!" "Não vai!". Eu fui.
Andei depressa, passei por sua sala e fui antes ao banheiro "Cabelo: ok. Uniforme: ok" "Porque meu rosto ta vermelho, meu Deus?!". Respirei profundamente, oxigenando todas as células do corpo, para acalmar. Como se tivesse adiantado...
Toc, toc, toc, toc... eram meus sapatos fazendo um estrondo no piso. 
"Deus do céu!", pensei antes de parar em frente à sua porta, dei duas batidinhas e abri...

Da trapaça

Achei: 
É patético o ser humano que se engana. Daquele que fecha os olhos e tapa os ouvidos para uma realidade tão transparente quanto a água.
Pior são aqueles que não se importam em se enganar e que, acreditando na sua mentira, passam a vivê-la como verdade incontestável.
Rondo minhas próprias recordações para saber se estou vivendo numa trapaça.
Não estou mais vivendo.
Mas, sim, trapaceei.
segunda-feira, 8 de abril de 2013

Paciente 11

Achei: 

Depois de sentar na cama com a ajuda da enfermeira, pergunta:
- É grave, doutor? Seja honesto comigo.
- Temo dizer que é pior do que eu esperava. O quadro evoluiu muito. Você procurou o tratamento tarde demais. E está contaminando os outros órgãos também, o primeiro foi o pulmão, por isso a constante falta de ar.
- Nossa... – lamentou a jovem.
- Sim. - continuou o médico – Você se expôs muito, e sua vulnerabilidade fez com que o caso já fosse considerado grave desde o dia do contágio. – falou de forma rigorosa.
- Mas eu não tive culpa! É claro que eu não queria pegar isso. Tomei todas as precauções, usei todas as proteções disponíveis. Não foi culpa minha... – e começou a lacrimejar – O que eu vou fazer? O que o senhor vai fazer pra me ajudar? Tem jeito né? Sou nova, tenho tanta coisa pra conquistar e realizar. Como meus pais iria ficar, hein, doutor?
- A melhor solução seria o transplante. Você ficaria perfeitamente bem. Mas você pode ficar anos na fila de espera, sentindo dor, com problemas pra dormir, a falta de ar... você sofreria por anos numa cama à espera disso.
- E então? – perguntou cautelosa.
- E então, temos a outra opção. Aquela da qual lhe falei no dia do exame. – disse sério.
- S...só aquela?
- Sinto dizer que sim.
- Bem... se é a melhor opção. Tudo bem, pode marcar a cirurgia. – e baixou os olhos ao dizer isso.
O médico então saiu da sala. Os anos de experiência disseram que aquela cirurgia já deveria ter sido feita, o dano está muito grande, pensou ele. Um colega se aproxima.
- Grande Dr. Barbosa! Dia movimentado o de hoje, não?!
- Sim. Agora mesmo estou indo marcar mais uma intervenção cirúrgica.
- Uma redução?? – perguntou o interno esperançoso.
- Não, mais uma reconstrução de coração partido.

"Não me diga que você está...?"

Achei: 

Sim. Contrariando todas minhas expectativas sim, eu estou.
Depois de tanto tempo privando-me de sentir qualquer coisa do tipo. Fugindo como uma desesperada ladra de diamantes sempre que sentia o cheiro da possibilidade. Finalmente fui vencida. Fui ao chão, pedi lona.
“E agora?!”
Agora nada. Não se pode fazer muita coisa. Passar os dias sufocando o que insiste em contaminar o que já foi decidido é uma opção útil.
É difícil, confuso. Sinto a vergonha de ter sido pega, novamente, por isso. Estou decepcionada comigo.
E, como disse, não se pode fazer muita coisa. Mas posso torcer para que meu amigo, o tempo, seja piedoso e acelere este processo que, geralmente, machuca tanto quanto o silêncio de uma desejada resposta.
“Não acredito que você está...!”
Sim, eu estou.
terça-feira, 2 de abril de 2013

Padrão

Achei: 
E quem disse que a vida é novidade?
...
Anos se passam, adquirimos maturidade e, até, nos tornamos mais invioláveis. Mais fortes. Será mesmo?
Frustrações, mágoas e amores não correspondidos: o enredo é o mesmo. O que muda são os personagens e a intensidade com que isso nos afeta, mas, no geral, é sempre a mesma coisa.

O pior: sofremos. Sofremos do mesmo jeito. Acontece que, com o tempo, aprendemos a lidar com essas dores. Lidar, somente. As sentimos, mas já conseguimos esconder a tristeza do rosto, segurar uma lágrima durante um almoço, sorrir quando o que queremos é nos prostrar numa cama e chorar. Perguntar “Como isso foi acontecer?!”, “Porque ele?!” “Porque comigo...?!”.

Sentimentos são jovens rebeldes e surdos.

Perceba que passamos por várias e várias vezes por problemas parecidos, dores conhecidas e, mesmo com toda a experiência que julgamos ter, não conseguimos evitá-las.

Ainda que lutemos diária e inconscientemente para negar o que, possivelmente, está nos afetando, não temos o poder supremo de controlar o que é incontrolável.