quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Rodrigues

Achei: 

O dia fora muito agitado. Passei a manhã toda fazendo vistorias em aeronaves e levado documentos até a delegacia. Cheguei em casa na hora do almoço. Preparei um sanduíche, mas nem pude dar duas mordidas, recebi uma chamada da central dizendo que chegariam uns deportados. Não tive tempo de descansar, tomar banho ou trocar de roupa, continuei usando aquela camisa laranja que a vendedora disse que não era laranja era "salmão" e uma calça verde que tinha uma mancha de lama na barra.
...
Antes de entrar no carro passei os olhos pelo vidro e reparei no meu reflexo com a barba por fazer. Rocei os dedos por ela e senti a realidade do descuido e falta de tempo. Olhei para o relógio e já passava das dezenove horas. Atravessei o saguão quase vazio do aeroporto. Mais burocracia a cumprir. Fui entrando na sala e reparei numa moça que, com uniforme impecável, caminhava de um lado para o outro meio cabisbaixa e parecia pensar no infinito.
Dei passos silenciosos, não queria chamar a atenção para minha presença. Ela me notou. Levantou a cabeça e sorriu com os olhos. Um tímido “Boa noite”. Retribui com um meio sorriso. Quis flertar, mas não o soube fazer. Ela tinha um ar sonhador. Uma expressão que gerava curiosidade.
...
Depois de preencher a papelada e trancar minha sala pensei na jovem da sala ao lado. Ia lhe oferecer um sorriso melhor, e soltar um comentário tolo como “Trabalho, hein?”, e quem sabe iniciar um papo. Ela não estava lá. Trocou de posto com um colega. Acenei apenas.
Já no carro, dei partida e contornei as curvas daquele estacionamento. Estava absorto na trajetória, mas pude reparar, por breves cinco segundos, nos olhos atentos que me seguiam e que, parecendo perceber que os havia descoberto se assustaram. Ela enrubesceu e deu a volta. Deu-me as costas e foi, deixando-me impregnado com uma interrogação.

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